A venda consignada parece um bom negócio para os dois lados. A revenda coloca o produto dentro do cliente, e o cliente só paga o que vender ou usar. Na prática, muitas revendas descobrem meses depois que o estoque sumiu, o acerto atrasou e ninguém sabe quanto da mercadoria ainda existe.
O problema raramente está no modelo. Está na falta de controle. A consignação transfere para fora do depósito um patrimônio da revenda, e muitas empresas continuam tratando o assunto com um caderno e a memória do vendedor.
Nas mentorias com donos de revenda, a consignação costuma aparecer como favor a um cliente antigo. Começa pequena, cresce sem regra e, quando alguém faz a conta, parte do capital de giro está parada em prateleiras alheias.
Este artigo mostra quando esse modelo vale a pena, como calcular o resultado por cliente e quais controles evitam prejuízo. O tratamento fiscal e o contrato devem ser definidos com o contador e o advogado.
- O Que É Venda Consignada na Revenda
- Os Dois Lados da Venda Consignada
- O Que a Pesquisa Mostra Sobre Consignação
- Quando a Venda Consignada Vale a Pena
- Quando Ficar de Fora
- A Conta da Venda Consignada por Cliente
- Como Controlar o Estoque Consignado
- Contrato e Nota Fiscal
- Quando o Fabricante Oferece Consignação à Revenda
- Exemplo Ilustrativo: Venda Consignada numa Distribuidora
- Erros Comuns na Venda Consignada
- Como o CRM Ajuda na Venda Consignada
- Resumo Executivo
- Perguntas Frequentes Sobre Venda Consignada
O Que É Venda Consignada na Revenda
Na consignação, a mercadoria é entregue a outra empresa, mas continua pertencendo a quem a enviou até ser vendida. Quem envia é o consignante. Quem recebe é o consignatário.
A venda consignada é comum em segmentos com muitos itens de reposição, como peças, ferragens e materiais de manutenção. Nesses casos, ter o produto à mão vale muito para quem compra.
O consignatário vende ou utiliza o produto e presta contas no período combinado. O que foi vendido vira faturamento. O que sobrou continua no estoque consignado ou volta para a origem.
A comparação com a venda a prazo ajuda a entender o risco. Na venda a prazo, a mercadoria já é do cliente e o risco principal é de crédito. Na consignação, a revenda assume também o risco do estoque: produto parado, avariado, vencido ou extraviado.
Os Dois Lados da Venda Consignada
A revenda pode estar em qualquer uma das duas posições, e cada uma traz riscos diferentes.
| Situação | Quem assume o estoque | O que a revenda ganha | O que a revenda arrisca |
| A revenda deixa produto no cliente | A revenda | Entrada na conta e venda recorrente | Capital parado, perdas e acerto atrasado |
| O fabricante deixa produto na revenda | O fabricante | Mix maior sem imobilizar capital | Dependência, metas e custo de controle |
No primeiro caso, a revenda age como fornecedora de um estoque avançado no cliente. No segundo, ela recebe do fabricante um estoque que só paga depois de vender. As próximas seções tratam principalmente do primeiro caso, mais comum e mais arriscado, e voltam ao segundo adiante.
O Que a Pesquisa Mostra Sobre Consignação
A literatura sobre o tema ajuda a tirar a consignação do campo da contabilidade. Um estudo publicado na revista Production acompanhou três empresas. Os autores Malhotra, Mackelprang e Jayaram concluíram que a consignação também é uma prática de gestão, que exige mudanças de processo para funcionar.
Segundo os autores, o benefício operacional vem principalmente da maior visibilidade da demanda para o fornecedor. Quem acompanha o consumo no cliente planeja melhor as compras e as entregas.
O mesmo artigo cita pesquisas com resultados diferentes. Uma delas aponta redução do risco de falta de produto. Outra, feita no varejo, encontrou resultados longe do ideal, por causa de assimetria de informação e custos altos de monitoramento. Para a revenda, a mensagem é clara: sem acompanhamento, o benefício não aparece.
Quando a Venda Consignada Vale a Pena
A venda consignada não precisa ser a regra da carteira. Quatro situações costumam justificar o risco.
Produto Novo na Região
O cliente não quer arriscar capital numa linha que não conhece. Deixar uma quantidade pequena ajuda a abrir o mercado, especialmente no lançamento de produto na revenda, com prazo definido para avaliar o giro.
Itens de Urgência
Peças de reposição e materiais críticos não podem faltar na operação do cliente. Um estoque avançado evita paradas e cria uma dependência saudável do fornecedor.
Cliente com Boa Saída e Pouco Capital
Um cliente com boa saída pode não ter caixa para manter o estoque ideal. A consignação libera a venda, desde que o histórico de pagamento seja bom.
Defesa de uma Conta Estratégica
Em clientes grandes, ter o produto no local pode barrar um concorrente. Nesse caso, o custo da consignação faz parte do plano para a conta.
Quando Ficar de Fora
Alguns sinais indicam que o modelo vai dar problema. O cliente tem histórico de atrasos ou não consegue separar o estoque consignado do próprio. O produto tem validade curta, valor alto por unidade ou risco grande de avaria.
Também vale recusar quando o cliente pede consignação só para não comprar. Se ele vende pouco do item, o estoque vai ficar parado do mesmo jeito, só que agora por conta da revenda.
Sempre que possível, ofereça uma alternativa: pedido menor, entrega programada ou prazo de pagamento um pouco maior. Em muitos casos, isso resolve a necessidade do cliente com menos risco.
A Conta da Venda Consignada por Cliente
O resultado depende principalmente do giro. A tabela compara dois clientes com o mesmo estoque, usando números de exemplo: margem de 25%, custo de capital de 2% ao mês, perdas de 0,5% ao mês sobre o estoque e R$ 250 por visita de contagem.
| Item mensal | Cliente A | Cliente B |
| Estoque consignado | R$ 30.000 | R$ 30.000 |
| Vendas do mês | R$ 12.000 | R$ 3.000 |
| Margem das vendas | R$ 3.000 | R$ 750 |
| Custo de capital | R$ 600 | R$ 600 |
| Perdas estimadas | R$ 150 | R$ 150 |
| Visita de contagem | R$ 250 | R$ 250 |
| Resultado | R$ 2.000 | R$ 250 negativo |
Essa conta muda a conversa sobre a venda consignada. O vendedor costuma olhar o estoque colocado no cliente como uma conquista. O gestor precisa olhar quanto esse estoque rende por mês.
Os dois clientes têm o mesmo estoque, mas só um paga a operação. Por isso, a regra mais útil é simples: se o giro cair abaixo de um mínimo por dois períodos seguidos, a quantidade consignada diminui ou a mercadoria volta.
Cada revenda deve usar os próprios números. A taxa de capital depende de como a empresa se financia, e as perdas só ficam conhecidas depois das primeiras contagens.
Como Controlar o Estoque Consignado
Três rotinas evitam a maior parte dos problemas. Antes delas, defina um valor máximo por cliente, somando a dívida normal e a mercadoria consignada. O limite de crédito precisa enxergar as duas coisas.
Inventário Inicial
Toda remessa sai com lista de itens, quantidades e valores, assinada pelo cliente. Esse documento é a base de qualquer acerto.
Acerto Periódico
Defina a frequência, quinzenal ou mensal, e quem faz. O cliente informa o que vendeu, a revenda fatura e o saldo é atualizado. Atraso no acerto é o primeiro sinal de problema.
Contagem Física
De tempos em tempos, alguém da revenda confere o estoque no cliente. A diferença entre o saldo e a contagem entra como venda ou é investigada. Sem contagem física, a revenda fica dependendo apenas da informação do cliente.
Contrato e Nota Fiscal
A mercadoria sai da revenda, e a operação precisa estar documentada. Segundo o guia da Rotina Fiscal sobre consignação mercantil, o consignante emite a nota com a natureza “Remessa em Consignação”, no código 5917 para operações dentro do estado, com destaque do ICMS e do IPI quando devidos.
As regras variam de um estado para outro e dependem do tipo de mercadoria, especialmente quando há substituição tributária. O contador precisa definir o procedimento antes da primeira remessa, inclusive nas devoluções.
Um contrato simples protege as duas partes. Ele deve dizer de quem é a mercadoria, quem responde por perdas e avarias, o prazo de acerto, as condições de devolução e o que acontece se o cliente encerrar as atividades. Peça a um advogado que revise o texto.
Quando o Fabricante Oferece Consignação à Revenda
O outro lado costuma parecer só vantagem. O fabricante deixa o produto, e a revenda paga depois de vender. Isso amplia o mix sem imobilizar capital e pode ajudar no lançamento de uma linha.
O cuidado é entender as condições. Pode haver obrigação de comprar o saldo depois de um prazo, exigência de exclusividade ou ligação com a meta da indústria. A mercadoria também ocupa espaço e exige controle, e a revenda responde por perdas conforme o contrato.
Faça a mesma conta de giro. Um estoque grátis que não vende ainda ocupa espaço e tempo da equipe.
Exemplo Ilustrativo: Venda Consignada numa Distribuidora
Um exemplo ilustrativo ajuda a ver o controle funcionando. Uma distribuidora de peças mantém estoque consignado em 15 oficinas e indústrias, sem regra definida. Cada vendedor combinou a própria condição.
O gestor manda contar tudo e descobre diferenças em vários clientes e itens parados há mais de um ano. Faz a conta do resultado por cliente e percebe que parte das contas não paga o custo da operação.
A distribuidora retira a mercadoria de quem não gira, define acertos mensais, contagem a cada trimestre e limite por cliente. Fica com menos clientes em consignação, e a mercadoria que voltou libera capital. Os números e a situação são de exemplo.
Erros Comuns na Venda Consignada
Deixar mercadoria sem lista assinada. Combinar condições diferentes para cada cliente. Não fazer contagem física. Ignorar o atraso no acerto. Tratar o estoque do cliente como se não fizesse parte do patrimônio da revenda.
Também é comum deixar a venda consignada sem dono. Quando o vendedor sai da empresa, o combinado sai com ele, e a mercadoria fica em clientes que ninguém mais acompanha. Por isso, cada cliente precisa de um responsável registrado e de um saldo que qualquer pessoa da gestão consiga consultar.
Outro erro comum é não avisar quem cuida das compras. O estoque consignado continua sendo da revenda, e a rotina entre comercial e estoque precisa considerar o que está fora do depósito. Sem isso, a empresa compra um item que tem parado em outro lugar.
Como o CRM Ajuda na Venda Consignada
O saldo da mercadoria fica no ERP. A combinação com cada cliente, as datas de acerto e as visitas de contagem precisam de um registro comercial.
O Clientar CRM, desenvolvido no Brasil para revendas, distribuidoras e indústrias, integra-se ao ERP por API e registra o histórico de contatos e visitas de cada cliente. A agenda comercial controla os follow-ups, e os relatórios gerenciais mostram vendas por vendedor e por período.
Com isso, cada acerto vira uma tarefa com data e responsável. O gestor enxerga quais vendedores estão em dia e acompanha as vendas de cada cliente com mercadoria consignada.
Resumo Executivo
A venda consignada coloca o produto dentro do cliente, mas a mercadoria continua sendo da revenda até ser vendida. Ela vale para produtos novos, itens de urgência, clientes com boa saída e contas estratégicas, desde que o giro pague a operação.
No exemplo do artigo, dois clientes com R$ 30.000 em estoque geram R$ 2.000 de resultado mensal ou R$ 250 de prejuízo. Um estudo publicado na revista Production mostra que a consignação exige mudanças de processo para gerar benefícios.
Os controles essenciais são lista assinada, acerto periódico, contagem física e limite por cliente. A nota de remessa e o contrato precisam ser definidos com o contador e o advogado.
Perguntas Frequentes Sobre Venda Consignada
O que é venda consignada?
É a entrega de mercadoria a outra empresa, que paga apenas o que vender ou usar. Até lá, o produto continua sendo de quem enviou.
Qual a diferença para a venda a prazo?
Na venda a prazo, a mercadoria já é do cliente. Na consignação, a revenda também assume o risco do estoque parado, avariado ou extraviado.
Quando esse modelo vale a pena?
Para produtos novos na região, itens de urgência, clientes com boa saída e pouco capital e contas estratégicas.
Como saber se a consignação dá lucro?
Comparando a margem das vendas com o custo de capital, as perdas e o custo das visitas de contagem, cliente a cliente.
De quanto em quanto tempo fazer o acerto?
Em geral, quinzenal ou mensal, com contagem física periódica para conferir o saldo.
Precisa de nota fiscal na remessa?
Sim. A remessa em consignação tem nota própria, e as regras variam por estado. O contador deve definir o procedimento.
Vale aceitar consignação do fabricante?
Pode valer, desde que a revenda confira prazos, obrigações de compra e o giro esperado do produto.
Como o CRM ajuda a controlar a consignação?
Transformando acertos e contagens em tarefas na agenda e registrando o histórico de visitas de cada cliente.
